sexta-feira, julho 28, 2006

Palimpsestos

Estou lendo algumas coisas sobre memória. Nos últimos anos comecei a me interessar sobre a memória e também sobre os imigrantes japoneses. Acho que tudo começou quando minha avó descobriu estar com câncer e eu percebi que não sabia a história dela. Sempre passava parte das férias e alguns feriados na casa dela e era lá que uma vez por ano a família da minha mãe (que é muito grande) se reunia. Para mim, era em Carandaí que eu podia sentir frio, tomar banho bem quente de ofurô, aquecer minhas mãos perto do fogão à lenha, ouvir o trem passando todos os dias no meio da noite, sentir cheiro de naftalina nos armários, comer mandju (doce de feijão) e omoti e brincar com gatinhos.

De vez em quando eu ficava sabendo um pouco da história dela e do meu avô (eu só tenho uma lembrança dele na memória), mas eu nunca perguntava nada, não sei por que. E o que restou fisicamente da história dela são dois álbuns de família. Neles as fotos não têm ordem cronológica, algumas fotos antigas dos meus tios, então bebês, estão na mesma página de outras deles jovens adultos, da minha mãe e da minha madrinha (as caçulas) novinhas, e também dos netos crianças. Acho que vovó foi colocando as fotos mais novas nos espaços que tinham no meio das fotos antigas, e também parece que outras fotos estavam lá originalmente, mas foram trocadas para dar espaço a fotos novas, mais queridas. Como podem dois álbuns conter uma trajetória de 79 anos? Ontem mesmo vi 10 álbuns da minha professora de japonês e de seu marido.

Das últimas vezes em que estive lá com ela ainda viva tirei algumas fotografias para guardá-las como lembrança. Não tirei muitas dela, pois, ela ficava o dia inteiro trabalhando e não queria ser fotografada assim. Uma hora estava mexendo na sua horta ou no jardim com botas de borracha, chapéu e lenço na cabeça, noutro momento estava na cozinha preparando comida. Estava sempre fazendo alguma coisa. E como sou devagar para tirar fotos, e minha câmera não é discreta, ficava difícil de fotografar sem ela perceber. Além do mais ficava com medo de ela brigar comigo. Até que em algum momento minha tia e minha mãe convenceram-na a se deixar ser fotografada. “É para terem uma lembrança.” – disseram. Mas eu não estava com minha câmera e tiramos fotos com a digital que não era muito boa. Acontece.

Voltando ao assunto memória, penso eu, que não damos muito valor a ela, até que aconteça algo marcante na nossa vida ou que envelheçamos. No meu caso começou com a vovó, e nos anos seguintes meus pais e irmão gradualmente indo para longe. E a saudade vem quadruplicada, junto com a vontade de rememorar qualquer momento. Então me lembro que nos últimos três anos aconteceram fatos marcantes e este ano tem mais, pois, finalmente me formo e dou um rumo para minha vida (nada definitivo, espero). Aí, deixo um pouco de lado esse negócio de rememorar e vou criando novas lembranças, até que chegue outro momento de rever a vida novamente.

3 comentários:

Anônimo disse...

que lindinho ju!! deu vontade de ter conhecido sua vovó..

Anônimo disse...

uma coisa q aprendi um pouco no último ano... a gente não conhece as pessoas. e as pessoas q a gente menos conhece são aquelas q vivem conosco, moram conosco, trabalham conosco, dormem conosco...

meus avós morreram. o último se foi há dois anos. hj tenho tantas perguntas a fazê-los.

Anônimo disse...

Bonito texto.